quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Miosótis

   Então eu o vi. Meus olhos estavam cansados, era cerca de meia-noite e apenas diga-se de passagem, não era a festa que eu procurava, por que (1) haviam dito que a banda Black Cat tocaria, a música não é boa, mas o vocalista sim e (2) toda e qualquer festa é melhor em sua cabeça, por que nela, todos se importam com você, todos bebem da melhor bebida, ninguém fica bêbado e você atrai os olhos da pessoa mais atraente.
   Minha mão estava cheia do suor da latinha que eu segurava e apertava entre meus dedos e as luzes da festa brilhavam em meu rosto fazendo eu poder ver pouco, mas ao mesmo tempo muito e esse “muito” eram os enormes olhos castanhos escuros e o cabelo também escuro, curto e bagunçado. É ele, eu repetia para mim mesma. Mas ele não me via, pois isso era ser invisível, olhar, mas nunca poder chamar a atenção de quem ama.
   Dei um breve gole na latinha, era cerveja, eu odeio, mas ainda não entendo como foi parar em minha mão.
   Agora lembro, foi Sarah, ela me dera e junto um conselho "Beba e o beije", não entendi direito o conselho e ela também não me deixou perguntar, pois quando me virei seus lábios já beijavam Damien, seu namorado.
   O espaço do lugar era grande, as paredes, pelo menos a que me encostava, era branca e refletia as cores do arco-íris vindas da lanterna e as pessoas dançavam no meio do salão. Fui andando até o pequeno bar e me sentei. Ainda o vigiava, ele estava do outro lado do salão e mesmo com a confusão de escuridão e luzes, eu podia vê-lo.
   Dei outro gole e disse:
  - Beba e beije.
  Sabe o que é interessante? Depois do primeiro gole, a cerveja deixa de ter um gosto "que droga amarga" para um "amargo", não que você comece a gostar dela, você apenas, começa a se habituar ao seu cheiro e gosto estranho de cevada.
   - Disse algo? - perguntou o bar man, naquele momento as linhas de seu rosto nem eram visíveis para mim, pois eu apenas pensava em um cara. Balancei a cabeça negativamente  – Deseja algo? – ele insistiu e assim como resposta levantei a latinha, os meus dedos ainda molhados apertando-a.
  Meus sentidos iam se esvaindo. Talvez eu não seja para bebida, disse a mim mesma.
  Mais um gole e assim o vi novamente. Ele sorria, se encontrava com talvez mais três garotos, era belo e eu... Prefiro não comentar sobre mim. Meu cabelo escuro e muito enrolado, meus olhos muito claros e minha pele muito branca eram detalhes que me deixavam apreensiva toda a manha ao ir para o colégio.
  Me virei para o bar man e comecei a olhá-lo e pensei o que ainda fazia ali. Ele também me encarava.
   - Conheço uma pessoa que adoraria você.
   - Eu te conheço? - perguntei fria e gélida
   - Não, mas... - ele se curvou distintamente e disse - Conheço seu segredo e o da sua irmã e o da cerveja também.
   Levantei a lata de cerveja e a encarei tentando ver o que ele queria dizer com o segredo da cerveja, eu o olhei.
   - Acho que já vou, tentar... - Beijar, a palavra ficou em minha mente, navegando e percebi que na verdade, nunca sentira vontade de fazer algo como aquilo, pelo menos não com essa vontade de beijar qualquer um, na verdade, um em especial, mas não o bar man ou o jovem sentado a duas cadeiras ao meu lado.
   - O que?
   - Nada. A cerveja está falando por mim. Vou pro carro e... - levantei apressada, mas então senti o toque quente no meu braço, me puxando.
   - De certa forma é a cerveja, mas existe algo mais. Vamos fazer o seguinte, eu te apresento o meu amigo e te ajudo com isso, tudo bem?
   Sabe quando você esta prestes a fazer algo de errado e pensa em algum tipo de ditado ao qual escutava quando era criança. Desta vez pude escutar "Não saia com estranhos", mas então é como se minha mãe interior houvesse sido anulada, além de qualquer tipo de pudor em minha personalidade fazendo me dizer:
   - Por que não?
   Ele se retirou de cima do balcão e deu a volta, me encontrando e estendendo a mão, paciente e calmo. Agora pude finalmente ver, seus olhos eram negros como os dele. Dele quem? Eu me perguntei. Alguma coisa estava errada, eu me esqueci de algo. Ou de alguém? Agarrei sua mão. É ele, eu acho. Pelo menos são os mesmos olhos negros e cabelo escuro. Ou não? Eu não sei. Me levantei do banco e sorri.
   Tocava uma música. Sim, era o DJ que contrataram. Claro, eu estava lá pela banda. Mas que banda? E que vocalista?
   Era como se minhas memórias fossem se esvaindo. Ou pelo menos era o lugar. "Flor Miosótis" era o seu nome.
   - Sabe o que dizem sobre a flor miosótis? - ela escutou a voz do bar man se elevando, pois passavam ao lado de uma das caixas de som. Eu fiz sinal de negação - Que quando você dá ao seu amor verdadeiro, ele nunca esquece de você. Mas que se usá-la indevidamente, todos esquecem de você. Até você mesmo esquece de sua identidade.
   - Como assim? - eu perguntei, meus dedos se contraíram com a ideia de ser invisível de verdade e soltaram a cerveja, calmamente, mal pude escutar o som metálico se espatifando no chão.
   - Em alguns lugares... - o som foi indo embora, agora, entravamos em um corredor e ao fim dele havia uma escada subindo para o andar de quem quer que seja que eu ia conhecer - Essa flor tem o apelido de "Não me esqueças" e alguns dizem que se usá-la do modo errado, dando a pessoa errada, talvez, não é apenas ela que se esquece de você, mas todos a sua volta. A base ou se preferir ideia principal desta magia é de que você é esquecível, mas não insubstituível ou irrelevante, então não deve forçar que as pessoas nunca te esqueçam.
   - Magia? - eu perguntei quase rindo da palavra - A vida não é um romance de Harry Potter ou Nárnia.
   - Para alguns. - as palavras eram calmas e doces e fizeram um frio percorrer a minha espinha.
   O corredor acabava com uma escada, a mesma em si era pequena, mas escura e seus degraus, de madeira. Quando começamos a subi-la, nossos passos ecoavam, sendo assim o único som audível naquele local. Música, pensei. Havia música. Eu acho.
   - Desde quando é uma praticante? - a voz dele ecoou naqueles degraus fazendo ela se sobressaltar, sua mão ainda agarrava a sua - Desculpe, aqui está uma pouco escuro - uma luz se acendeu a frente do bar man, parecia uma lanterna.
   - De que?
   - Magia. Ou... Ressonância de almas. Ou... Como você chama? - ele perguntou se virando e me olhando nos olhos - Representação de alma? Aura espiritual? Prolongamento de alma? Transformação  – fez uma pausa ainda a encarando e disse triunfante - Transmutação, agora acertei, certo?
   Deve estar drogado, pensei. Vou concordar com a cabeça e continuar andando por essa escada, lá encima deve ter uma saída. E foi o que fiz, o problema é que talvez tenha sido a escolha errada.
   - Transmutação, ele repetiu para si mesmo. Apenas famílias antigas usam este termo. – ele virou para a parece e a encarou, continuando a nossa marcha até que então, a luz a frente do mesmo se apagou e outra mais forte, refletindo por toda a escadaria, era uma porta sendo aberta, havíamos chego ao fim do "túnel", por falta de palavras.
   Aquele segundo andar era enorme, havia uma mesa de sinuca no centro, sofás e poltronas de couro, era bem iluminado e o cheiro de salgadinhos pestinhava o local. As paredes eram da cor de vinho e as janelas estavam abertas, a noite invadia a sala. Na mesma se via a grande Lua junto de pequenas estrelas. Lua? Lua cheia?, me perguntei, não me recordava que hoje era dia de lua cheia.
   - Pelo seu cheiro soube que era de uma família antiga. O bar man parecia concluir os pensamentos
   Assenti novamente e quando soltou minha mão pude perceber um pouco mais da sala. Ele se sentou e pude ver os personagens, uma jovem, talvez da minha idade, sentada em uma poltrona abaixo da janela sendo banhada pelo brilho da lua e mais um homem deitado na mesa de sinuca.
   - Juliano, trouxe uma praticante. Pelo cheiro, é de família antiga. - ele cruzou as pernas, se sentindo em casa e eu os olhava ainda perto da porta.
   Escutei um "snif snif" vindo do homem. Ele havia fungado?
   - Não tão antiga. Tem aquela. - a voz era grossa e distinta
   - Ela é intocável e nem sabe quem é. - o outro disse se lamentando.
   - Ainda - agora era a jovem banhada pela a Lua que dissera, quase em sussurro  Seus olhos sobre aquela luz eram de um negro prateado e seus olhos azuis.
   O deitado na mesa de sinuca se levantou e me olhou. Naquele momento, quis a minha... Irmã? Sim, ela. A quis perto de mim, ela sempre sabia o que eu deveria fazer e talvez com sua presença, aqueles olhares não pareceriam tão indiscretos, quase como se me despissem e violassem.
   - Tem algo errado nela.
   - Não me esqueças. Não me esqueças. Me faça seu. E nunca me esqueças para assim, eu sempre...
   - Te lembrar. - ele completou, sorrindo - Deu errado
   - Eu sei. Então pensei que... Já que ela não se lembra e assim ninguém se lembrara...
   - Quem se importaria com a sua... Essência  - pareciam irmãos, as vozes eram muito parecidas e se completavam naquela sala.
   - Por que vocês simplesmente não se deixam morrer? - a voz da jovem veio novamente dessa vez se virando e me encarando. “Snif snif”, escutei novamente e dessa vez, eu vi, mas era ela quem cheirava o ar.
   - Por que é chato, irmã. É chato. - os dois disseram em unissomo.
   Os grandes olhos azuis após a sua, por assim dizer, fungada se viraram quase sem ou talvez sem nenhum tipo de interesse sobre mim.
   - Eu não entendo. – eu pude dizer finalmente dando um passo para trás. - Na verdade, eu não me lembro direito. Que lugar é esse? Você disse, sobre... Me ajudar? Eu não lembro. Minha cabeça, ela... - pus as mãos em minha cabeça, meus pensamentos eram vagos - Meu nome é Emanuele, mas me chamam de Ema. Tenho dezessete e... - gemi por causa de outra pontada e assim comecei a falar coisas sem nexo e essas eram partes pequenas de minha vida, a parte estranha era que a cada momento que eu dizia um pequeno evento de minha vida era como se fosse apagado de minha memoria. Eu estava sendo apagada. Aos poucos. Aos... Pou... O que eu dizia? Eu... Sou... E...
   - É melhor ir rápido - pude escutar a garota dizendo. Eu a conheço. Quem é ela?
   - Seremos. - disse o que estava sobre a mesa daquele jogo, o qual se usa bolas e um taco, se levantou completamente e em sua mão havia algo,... Azul? Eu não sei. Brilhava de diversas formas, era quase... Celestial.
   O outro levantou do sofá de couro marrom com um objeto de mesma cor. Eram facas, eu acho. Eu não lembro, na verdade, eu não sei, eu só... Talvez, eu tenha morrido, não sei, preciso de ajuda. É como se...
   Então eu o vi. Meus olhos estavam cansados, era cerca de meia-noite e apenas diga-se de passagem, não era a festa que eu procurava, por que (1) haviam dito que a banda Black Cat tocaria, a música não é boa, mas o vocalista, sim e (2) toda e qualquer festa é melhor em sua cabeça, por que nela, todos se importam com você, todos bebem da melhor bebida, ninguém fica bêbado e você atrai os olhos da pessoa mais atraente...

   A jovem de cabelos negros e enrolados estava fadada a percorrer aquele círculo, suas únicas memórias não apagadas, suas únicas memórias salvas em sua essência ao ser morta.
   - Ela não era praticante - disse um dos jovens
   - Não era.
   - Eu senti seu cheiro e sabia disso. - disse a garota vendo os irmãos segurarem algum tipo de esfera luminosa, cada um uma metade, era da jovem, isso ela sabia. Se virou novamente, olhando a Lua. Bruxas de Tessália, pensou, bruxas... Onde elas estão? Minhas irmãs, não de sangue, mas de espirito  São melhores que esses dois, são.., ela parou seu pensamento, não queria continuar se punindo com essas memórias e assim fechou os olhos ignorando o cheiro de sangue somado à enxofre ou algo similar, algo que nunca fora descoberto em nenhum laboratório, que esses conhecedores de magia chamam de "essência", mas existe muito mais por trás dela.
 -x-

Espero que tenham gostado. Mas então, deixe eu explicar, esse é como um prólogo para algo que estou planejando fazer e gostaria da opinião de vocês. Não tenho muito a dizer sobre, acho que só perguntando mesmo (haha).
-Portico


5 comentários:

  1. Continue! Meu Deus, continue!!!!!!!! *0*

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  2. Tem um selinho pra você lá no meu blog!
    http://aluzdamadrugada.blogspot.com.br/2013/08/selinhos.html
    Bjs

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  3. Oi, tudo bom?
    Vi seu recadinho no skoob e vim te conhecer!
    Não sei porque mas eu amo textos que tem "Sarah's" como personagens hahaa
    Continue a escrever, ficou muito bom!
    Tem promoção nova, participa!
    Beijão
    Endless Poem

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    Respostas
    1. Oi. Muito Obrigado por ter vindo. E nossa, também curto o nome Sarah kkkkk Vou sim continuar, o incentivo de vocês me dá forças kkkkk
      Volte sempre

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